Carta aberta da formação do GEP Mulheres


Porque de nada adiantará libertar as correntes da nossa exploração, sem que libertemos tantas outras correntes invisibilizadas ao longo da nossa luta. A opressão contra as mulheres é uma destas, e por isso, considerando o debate sobre gênero, resolvemos nos organizar para refletirmos sobre o tema e pensarmos em formas de atuação que combatam o machismo mais entranhado em nossas vivências. Eis, abaixo, a carta de fundação do GEP-Mulheres (nome provisório). Esperamos que ela auxilie na mobilização e no estreitamento dos vínculos de companheirismo e solidariedade entre tantas e tantas outras trabalhadoras dispostas a transformar o que nos cerca.

“Estimadas Companheiras,

Temos estado juntas, lado a lado, em nossa luta nas ruas, nas escolas e nas ocupações. Temos compartilhado, dia após dia, a esperança por um mundo livre da exploração de uns por outros, e os passos necessários para a construção do novo, mais igualitário e efetivamente justo. Somos trabalhadoras, somos mães, mulheres e negras que optaram pela luta popular, em terra de pacificação autoritária, de silenciamento por perseguição e morte, de dominação ideológica e pela coação, branca, masculina e heteronormativa. Sofremos em nosso cotidiano, em cada relação que estabelecemos, as mais diversas formas de opressão, tão sutis e tão gritantes, mas sempre comuns a todas as nossas histórias. E percebemos, por fim, que a indignação que mora dentro de nós jamais será menor que qualquer outra indignação, precisando ganhar corpo, organização, para a sua superação mais radical em absolutamente todos os espaços em que atuamos e estamos a ampliar o nosso movimento.
Por isso nos tem sido imperioso o esforço para a nossa auto-organização, permanente, orgânica e libertária, que reforce laços de companheirismo, cuidado e confiança entre nós. O cenário que se apresenta resguarda, para além da mercantilização e da apropriação de nossos corpos e vidas, problemas típicos da dominação capitalista, referências públicas masculinas, pouca participação e intervenção das mulheres em fóruns ampliados e deliberativos, e um estímulo à competição entre nós. Da falta desta discussão sobre gênero, se perpetuam, internamente e externamente ao nosso movimento, históricos privilégios, muitas vezes presentes de maneira combativa em discursos, mas de forma reprodutora na prática, que acabam por reafirmar a dominação inconciliável, é fundamental que se ressalte, com a nossa luta. Negligencia-se, ainda, as nossas demandas mais específicas, como a de creches durante as nossas atividades, bem como se impõe um padrão de comportamento referendado em paradigmas historicamente masculinos, de força e virilidade, que acarreta na estigmatização de outras formas de agir. A falta mesmo desta reflexão aliada ao machismo mais entranhado no senso comum, tem promovido expulsões veladas de mulheres dos movimentos como um todo, incluindo o nosso, o que mostra o caráter de urgência desta nossa iniciativa.
Sem armas entre nós e sem amarras, instituindo uma relação de apoio mútuo que garanta a nossa mais diversa forma de atuação, pretendemos tornar efetivo o protagonismo das mulheres exploradas e oprimidas. Pretendemos envolver o coletivo do GEP, dentre outros coletivos, no comprometimento com essa luta e reflexão, pensar na criação de mecanismos para a superação de crises relacionadas à opressão de gênero, e pretendemos, por fim, pensar em metodologias de intervenção social que garantam a eficiência daquilo que queremos comunicar e combater.
Algumas de nós, motivadas por indignações em demasiado latentes e legítimas, decidimos conversar sobre esta proposta no último sábado, dia 25/10, compartilhando as nossas motivações para a criação deste espaço e apontando algumas iniciativas importantes para que se rompa com o receio que algumas companheiras trazem consigo sobre a participação e envolvimento neste tipo de luta. Se pararmos para pensar, receio este que pode estar escondendo um padrão machista de pensamento, que pode considerar um caráter secundário a esta questão social, ou considerar, ainda, que não seremos capazes de manter a discussão em seu caráter político essencialmente. Lembremos que somos um Grupo de Educação Popular que se propõe a construir experiências e uma militância autogestionadas, e que, portanto, acredita na contribuição de cada um dos indivíduos envolvidos para o fortalecimento da coletividade e de um outro projeto de sociedade. Assumamos o protagonismo que nós mesmas reivindicamos em nosso discurso! De forma fraterna e transparente, convocamos à reflexão cada uma de nós, afim de que superemos tais questões e caminhemos rumo à nossa própria liberdade. Se pararmos para pensar, aquilo que é injustiça só se transformará se, e somente se, passar pela militância de nossas mentes e mãos. Nos fortaleçamos e lutemos por uma outra ordem, companheiras!

Um forte abraço em cada baderneira!”

“Em uma sociedade sustentada pela mentira, qualquer opressão de verdade é vista como loucura” – Emma Goldman

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